MEMÓRIA NO CHÃO - O DIA EM QUE OS CASARÕES HISTÓRICOS DA AVENIDA PAULISTA FORAM DERRUBADOS
Se você mora em São Paulo, ou visitou a cidade recentemente, deve ter percebido que ela está mais para canteiro de obras, do que para um lugar confortável de se viver.
Nos últimos anos, tem rolado um baita rebuliço no mercado imobiliário de São Paulo, através de várias concessões da prefeitura da cidade. Isso está levando à construção acelerada de incontáveis prédios e estabelecimentos que, muitas vezes, acabam passando por cima (literalmente) da memória urbana e do patrimônio cultural.
Por isso, viemos te contar um pouco sobre o dia em que casarões históricos da Avenida Paulista foram derrubados na calada da noite
A Avenida Paulista antigamente
Avenida Paulista. Gaensly, Guilherme (1905 circa). Acervo Brasiliana Fotografica.
Não sei se você sabe, mas antes de ser tomada por prédios comerciais, a Avenida Paulista era repleta de casarões históricos. Em 1982, ainda existiam aproximadamente 31 casarões na avenida. Eles reuniam diferentes estilos arquitetônicos, incluindo referências clássicas, francesas, inglesas, neoclássicas e árabes, que foram construídos lá da época do ciclo do café (séc. XIX).
Eram edifícios com alto valor histórico para a cidade e que, se preservados, seriam para nós uma conexão com o nosso passado. Então, por volta de 1982, órgãos ligados à preservação do patrimônio estudavam tombar parte desses imóveis. Entre os envolvidos estava o ilustre geógrafo brasileiro Aziz Ab’Sáber. O tombamento impediria ou dificultaria a demolição dos casarões e a utilização dos terrenos para grandes empreendimentos.
O vazamento
Avenida Paulista. Gaensly, Guilherme (1905 circa). Acervo Brasiliana Fotografica.
Antes mesmo dos estudos serem concluídos, a informação sobre os possíveis tombamentos vazou na imprensa. Para os proprietários, isso significava uma corrida contra o tempo - afinal, um terreno vazio valeria muito mais do que um prédio “velho” e tombado.
Foi então que alguns proprietários decidiram demolir as construções antes que a proteção legal entrasse em vigor. Na calada de uma noite de domingo, máquinas começaram a destruir três imóveis. Quando as autoridades chegaram, já não havia como salvá-los.
As vigílias de proteção
Para proteger essas construções históricas, formou-se como resposta uma operação de vigilância. Funcionários da área de cultura e policiais passaram a acompanhar os casarões durante 24 horas, tentando impedir que outras máquinas fossem utilizadas antes da autorização dos tombamentos. Entre estes funcionários, estava o então secretário de Cultura João Carlos Martins (SIM, o maestro e pianista famoso!), que participou ativamente das vigílias.
Um cenário completamente absurdo: representantes do poder público circulam durante a madrugada tentando adivinhar onde os tratores aparecerão, enquanto proprietários e construtoras sabem que possuem apenas alguns dias para agir.
Conforme o anúncio oficial se aproximava, surgia a impressão de que os imóveis restantes finalmente seriam preservados. Ainda havia esperança!
A bela Casa Mourisca
Palacete Mourisco – Residência de Abraão Andraus, após reforma do construtor José Camera (1933-37). Fotografia de autoria de Leon Lieberman. Acervo de Sérgio Ramos Câmera.
Na altura do número 867, havia um dos palacetes mais singulares da Paulista, a chamada Casa Mourisca. Era um casarão que possuía elementos arquitetônicos inspirados em estilos árabes e neoislâmicos, e que havia sido preservada por mais de 40 anos desde a sua construção.
Mas foi na madrugada de 20 de junho de 1982, durante uma pausa na vigília, que os proprietários mandaram derrubar a construção. Quando houve reação popular com manifestações de repúdio, já era tarde.
Casa Mourisca antes e depois da demolição. Revista Manchete, edição de 30 de junho de 1982. Reconta de Luciana Cotrim, na “Série Avenida Paulista - Casarões & Edifícios”
Por que isso acontece?
Essas destruições sem aviso são uma estratégia do setor imobiliário para gerar lucro. Prédios históricos não desaparecem apenas porque ficam antigos ou perderam utilidade. Muitos são conscientemente eliminados para liberar terrenos altamente valorizados em localizações privilegiadas.
Mas neste processo ganancioso, perde-se a memória da cidade junto com seus edifícios, assim como a conexão das pessoas com a cidade. Soma-se a isso o fato de que o nosso sistema público de proteção ao patrimônio é bastante defasado e impotente.
A história se repete (no presente).
Vários locais e construções históricas ainda hoje sofrem nas garras das construtoras - que devoram prédios centenários. Em Pinheiros, Vila Mariana, Vila Madalena e diversos outros bairros estão tendo sua memória literalmente demolida.
Com isso, a cidade, que deveria ser feita para as pessoas, vai virando uma máquina de fazer dinheiro para entidades sem rosto. Vai sumindo a quitanda, o casarão que poderia virar museu, a pracinha bonita, e vão surgindo os prédios espelhados, as lojas de conveniência de rede e os desertos alimentares.
É nessa cidade que queremos viver?
Fontes:
Episódio “Hora do Lanche”, do podcast Rádio Novelo Apresenta.
A saga dos casarões demolidos pelos donos na Paulista - Aventuras na História
10 Casarões da Avenida Paulista para matar saudades - São Paulo Antiga
Schaumann, Andraus, Lotaif moraram em frente à prainha da Paulista - Série Avenida Paulista
Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole - Brasiliana Fotografica
Tombamentos e demolições na Avenida Paulista na década de 1980 - Lucília Santos Siqueira