As bruxas que não foram queimadas

Quando vemos histórias de mulheres revolucionárias, é quase automático pensarmos no fim trágico que elas levaram. Hoje, queremos mostrar uma história diferente: a das mulheres subversivas que prosperaram em suas batalhas. Inclusive, algumas delas ainda estão vivas!

A feiticeira Vivien paralisando o mago Merlin - Foto por Julia Margaret Cameron (1874)


Almerinda Farias Gama (1899 - 1999)

Vinda de Maceió, foi uma das primeiras mulheres negras a assumir protagonismo político no Brasil. Era jornalista, poetisa, sindicalista e datilógrafa. Presidiu o Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal e engajou-se na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada por Bertha Lutz.

Em 1933, foi uma das duas únicas mulheres presentes na Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição de 1934, ao lado de Carlota Pereira de Queirós.

Almerinda também era musicista. Recentemente, suas partituras foram redescobertas e executadas, revelando um talento artístico pouco conhecido. Ela faleceu em 31 de março de 1999, em São Paulo, aos 99 anos.

Foi decretada Heroína da Pátria em 2025.

 

Joênia Wapichana (1974 - presente)

Imagem de Avener Prado para Folhapress

Originária da comunidade indígena Truarú da Cabeceira, região do Murupú, do povo Wapichana. Ela é advogada, política e ativista dos direitos dos povos indígenas.

Ela foi muitas vezes a pioneira:

  • Primeira mulher indígena a se formar em Direito no Brasil em 1997 e a primeira a exercer a profissão de advogada em defesa dos direitos dos povos originários;

  • Em 2008, foi a primeira indígena a defender oralmente uma causa no Supremo Tribunal Federal (STF), no caso da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol;

  • Em 2018, foi eleita deputada federal por Roraima, tornando-se a primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados na história do Brasil;

  • Em 1º de fevereiro de 2023, tomou posse como presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), tornando-se a primeira mulher indígena a comandar a entidade.

 

Antonieta de Barros (1901 - 1952)

Foi uma professora, jornalista e política fodona de Florianópolis (SC), que usava seus artigos para combater o racismo e o sexismo, tornando-se uma voz pioneira na imprensa catarinense.

Em 1934, tornou-se a primeira mulher negra a assumir um mandato popular no Brasil, como deputada estadual em Santa Catarina. Ela lutou pela emancipação feminina, pela valorização da cultura negra e pela educação de qualidade, fundando o Curso Antonieta de Barros, que alfabetizou muitos adultos.

Faleceu em 28 de março de 1952, em Florianópolis, e foi decretada como Heroína da Pátria em 2023.

 

Rigoberta Menchú (1958 - presente)

É uma líder indígena maia-quiché que se tornou defensora dos direitos humanos após sofrer perseguição e exílio durante a guerra civil guatemalteca. Sua trajetória foi marcada pela busca de reconciliação entre o governo guatemalteco e as organizações guerrilheiras.

Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1992 por sua luta pelos direitos dos povos indígenas e foi a primeira indígena a participar do Grupo de Trabalho da ONU sobre Povos Aborígenes, em 1982.

E ela ainda tá na ativa, viu? Rigoberta ainda exerce liderança na Fundação Rigoberta Menchú Tum, presidindo a organização, que é voltada à promoção da cultura da paz, à defesa dos direitos dos povos originários, à preservação da memória histórica e ao apoio a comunidades vulneráveis na América Latina.

 

Rani Velu Nachchiyar (1730 – 1796)

Selo comemorativo lançado pelo governo indiano em 2008 em homenagem a Rani Velu Nachchiyar

Foi rainha do estado de Sivaganga, na atual Índia e é considerada a primeira soberana indiana a desafiar o Império Britânico.

Entre o povo tâmil, é chamada de "Veeramangai", que significa "mulher de coragem". Em 1780, atacou os britânicos e os venceu com o apoio de seus aliados.

Velu Nachchiyar foi uma das poucas soberanas indianas a reconquistar e manter seu reinado, governando por mais dez anos após a libertação. Em 1790, passou o trono para sua filha, Vellachi Nachiyar. Ela morreu em 25 de dezembro de 1796, em Sivaganga, de causas naturais, aos 66 anos.

 

Ching Shih (1775–1844)

Ilustração do livro “Pirates: An Illustrated History of Privateers, Buccaneers & Pirates from the Sixteenth Century to the Present" (Londres, 1996).

Foi uma pirata chinesa que assumiu o comando da Frota da Bandeira Vermelha, chegando a liderar entre 20.000 e 40.000 piratas e centenas de navios.

Ela criou um código de conduta severo para seus liderados: todas as mulheres capturadas sob seu domínio deveriam ser intocáveis - se algum tripulante estuprasse uma prisioneira, seria decapitado.

Em 1810, negociou sua rendição com o governo chinês, obtendo anistia e mantendo parte de sua fortuna.  Em uma sociedade confuciana que excluía as mulheres do poder, isso era impensável para a maioria dos homens de seu tempo, mas Ching Shih conseguiu.

Morreu em Macau, de causas naturais, aos 69 anos.


Pedro NalonFuturo Refeitório